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quarta-feira, fevereiro 11, 2009

VOLUNTARIADO - A cereja em cima do bolo...

Fiquei extremamente sensibilizada e até comovida por Sua Ex.ª, a Srª Ministra, se lembrar de mim, autorizando a minha candidatura para o trabalho de VOLUNTARIADO. Aposentei-me recentemente, com grande penalização, pela única razão da sorte me ter bafejado com o primeiro prémio no totoloto. Se assim não fosse, ficaria eternamente na minha ESCOLA, no Porto, e seria uma fiel seguidora dos Seus princípios educativos.
Tal Senhora sempre me elogiou, me considerou, me respeitou, me devolveu a autoridade como Professora, além de ter contribuído para que todos os alunos, pais e comunidade educativa reconhecessem a nobre missão de PROFESSOR. Estas Suas atitudes não são mais que o reflexo da Sua actividade como professora, profissão que Ela viveu, intensamente, como um sacerdócio, desdobrando-se em esforços, diariamente, para que os Seus alunos aprendessem e se tornassem seres responsáveis e úteis à sociedade. ENSINAR sempre foi o seu objectivo prioritário...!
Ela, com o seu ar austero, prepotente, cínico, arrogante e sinistro, contracenando com o Seu rosto seráfico e cândido, possui um íntimo puro, dócil, meigo, terno, compreensivo e muito doce...! Não duvidem! É realmente uma personagem muito "fixe" e detentora de muitos "valores"...! Por tudo isto, eu seria imensamente ingrata se não comparecesse, "a correr", ao Seu apelo...! Contribuirei absolutamente com tudo o que estiver ao meu alcance para fazer brotar, do Seu rosto angelical, um sorriso de satisfação. Ela merece...!
Sinto muitas mas muitas saudades do tempo em que eu ENSINAVA mas abraçarei com total altruísmo e coragem esta tão insólita proposta, convicta de que este voluntariado irá engrossar com a presença de outros colegas e ir-se-ão criando novas "parcerias".
Os meus familiares apoiam-me, incondicionalmente, nesta tão nobre missão, não se importando que as suas refeições passem a ser "Cérélac" ou "Nestum".
Li, avidamente, o PERFIL DO CANDIDATO A RECRUTAR e penso ser dele portadora.
A prestação do meu serviço será sem limite de tempo, o que ultrapassará as 3 horas semanais, no mínimo exigidas. Não necessitarei de "folga" a não ser de um horário, um pouco mais flexível, à sexta-feira de manhã. Optei por tomar um único banho semanal, neste dia, para não prejudicar, com atrasos, as minhas futuras funções.
Respeitarei e agirei em conformidade com o Projecto Educativo, Regulamento Interno e Plano Anual de Actividades.
Prestarei todo o apoio à Sala de Estudo, à Biblioteca/Centro de Recursos, às Visitas de Estudo, às Tutorias, etc, etc, e a todas as "áreas de eventual intervenção do professor titular", contribuindo para o não recrutamento ou para a dispensa de outros colegas, numa época de grande contenção económica.
Orientarei os alunos em todos os sistemas operativos e, se me permitirem, transportarei comigo o meu "Magalhães" este, de fabrico estritamente nacional.
Porei, mais uma vez, ao dispor as minhas "competências cientificas, pedagógicas e cívicas" e a minha "visão multidimensional", nunca antes reconhecidas, contribuindo para que os resultados dos estudos efectuados pela O.C.D.E. continuem a ser espectaculares e elogiosos !
Dispensarei o "passe social" oferecido pois, para chegar mais depressa à escola, utilizarei patins ou trotinete .
Estaria também disposta, se mo permitissem, a dar o maior número possível de aulas de substituição, de tão grande utilidade, em qualquer área disciplinar. Na Matemática apresento algumas dificuldades mas para as superar e, se me fosse concedida a "nova oportunidade", frequentaria um "cursozeco" para receber, logo de seguida, um DIPLOMA. Nestas referidas aulas, divulgaria também as histórias do "Tintin" e do "Pinóquio", presentemente tão em voga...!
Quanto às minhas refeições, arranjarei uma marmita ou prepararei na escola, um esparguete "al dente" para que, mesmo "depois de esticado, não parta", uns"ovos" mexidos com "tomate" ou "uma bolacha e a seguir um copo de leite".
Na bagagem, levarei só um saquito com uma bata, umas peúgas de aquecimento e uns chinelos, na contingência de vir a ser preciso fazer uma limpeza ou "deitar uma mão na cantina".
Dispensarei também preocupações com a minha saúde física e com o meu bem-estar emocional, pois precaver-me-ei com uns comprimiditos de "Centrum 50 +" ou de "Fosfoglutina B 6".
Prometo ser serviçal, discreta e submissa, não "me descalçar nas reuniões, não gesticular em demasia, mantendo uma postura correcta e educada", nunca pronunciar a expressão "jamais" e detectar todos os "poderes ocultos" elevando as mãos ao alto, como se de uma prece se tratasse.
Referente à avaliação do meu desempenho, elaborarei "um relatório anual da actividade que deve integrar uma autoavaliação do trabalho desenvolvido" e preencherei todas as "fichas e grelhas" possíveis e imaginárias. Se, no decorrer deste processo, o papel escassear, poderei cedê-lo, de bom grado, reciclado ou a reciclar, às cores ou em "rolos".
Acatarei "a avaliação periódica" da minha actuação de forma "independente", aceitando a sua publicação em qualquer dia de semana, incluindo "domingo".
Espero ter a sorte, a honra e a felicidade de ser seleccionada para concretizar esta dádiva divina e ficar eternamente em estado de graça.
Espero também, se para tanto me ajudar "o engenho e arte", ser medalhada, no dia 10 de Junho, juntamente com os colegas que me seguirem nesta cruzada, e ouvir os gritos efusivos de glória -"Porreiro, Pá !" e "Bravo !", que adoçarão as nossas almas...!


Eternamente grata e ao Seu dispor



A professora F. G

terça-feira, fevereiro 10, 2009

APOSENTADOS: M.E. "oferece-lhes" trabalho gratuito

Uma medida que visa colmatar a falta de recursos humanos docentes nas escolas, querendo transformar quem foi obrigado a aposentar-se nos "carrascos" do desemprego de milhares de jovens professores

O projecto de despacho
O Secretário de Estado da Educação remeteu ao Conselho das Escolas um projecto de despacho que visa recrutar professores aposentados para, “de livre vontade, sem remuneração, numa prática privilegiada de realização pessoal e social”, isto é, em regime de voluntariado, desenvolverem actividades nas escolas que deveriam ser da responsabilidade de professores no activo com que, no entanto, estas não podem contar.

Perante o cada vez maior número de solicitações a que as escolas estão sujeitas, mas que não podem satisfazer-se com as regras impostas pelo ME para definição do seu quadro ou, mesmo, pelo recurso à contratação (correspondendo, tais regras, a uma das facetas da política economicista com que gere o funcionamento e organização do sistema educativo), pretende o ME a aprovação de legislação que permita às escolas organizarem programas de voluntariado envolvendo professores aposentados.

A falta de recursos humanos

Ainda que o projecto de despacho refira que o voluntário não substitui os recursos humanos considerados necessários, é evidente que, por um lado, as dificuldades colocadas às escolas para adequarem os respectivos quadros às suas necessidades efectivas e, por outro, as designadas “áreas de intervenção do professor voluntário” negam aquela declaração de intenção.

Entre muitas outras, são referidas como áreas de intervenção para trabalho voluntário: apoio a alunos nas salas de estudo, apoio e funcionamento das bibliotecas escolares/Centros de Recursos, articulação vertical e horizontal dos currículos, articulação de projectos internos e externos das escolas, dinamização de projectos de aproximação da escola ao meio, apoio e dinamização de actividades extracurriculares…

Não se questiona a importância, para as escolas e as comunidades, das actividades que são referidas no anexo ao projecto de despacho, discorda-se é que, para as desenvolver e assumir em pleno, o ME, em vez de criar as indispensáveis condições às escolas, dotando-as dos recursos que lhes fazem falta, pretenda, através do trabalho gratuito dos docentes aposentados, substituir aqueles que nelas deveriam ser colocados.

Uma política economicista

Sabendo-se que um dos motivos do afastamento de muitos professores das escolas, aposentando-se, é a natureza e o rumo da política educativa do ME/Governo, não é de crer que este voluntariado consiga muitos adeptos. Contudo, independentemente disso, há limites para as medidas economicistas do Governo, não se aceitando aquelas que pretendem, sobretudo, remeter para o desemprego jovens professores que tanto têm para dar e tão necessários são às escolas portuguesas.

O Secretariado Nacional
(1.02.2009)